A PACIÊNCIA

“It doesn’t matter how slowly you go as long as you do not stop.”- Confucius

Esta frase é extremamente verdadeira quando falamos em alcançar mudanças na nossa vida. Não raramente, acordamos dispostos a implementar de supetão aquelas viradas sensacionais na nossa rotina, levantando com o pé direito e prometendo fazer tudo de forma diferente. Saímos impetuosos com um espírito disposto a cumprimentar todo mundo, comer uma refeição saudável, admirar a beleza da vida e voltar para casa pleno da sensação de que uma nova vida está começando…

Só que não ocorre nada disso.

As pessoas esbarram em você (no ônibus, no metrô, na rua, no shopping, na escada, nos corredores, nos elevadores, etc) e o sangue sobe até a última veia da cabeça. Aí você para no primeiro fast food pelo qual passa na hora do almoço ou pede aquela irresistível feijoada com refrigerante complementada por um bolo de  chocolate – com recheio e cobertura de chocolate! – de sobremesa… hum! No trabalho ou na faculdade, nada de novo. A noite, você chega em casa até meio chateado, mas se preocupa pouco: diz a si mesmo que no dia seguinte vai fazer dar certo.

E você tenta.

E passa todos os dias tentando!

Infelizmente, porém, as chances das suas tentativas darem certo são mínimas (mesmo depois de anos): as mudanças que permanecem verdadeiramente são processadas num ritmo muito mais devagar do que aquele com o qual nos acostumamos no dia-a-dia – ritmo este que vem acelerando. Elas exigem adaptação, paciência e tranquilidade.

Quando pensamos em buscar o melhor para nós, podemos nos inspirar na natureza (da qual fazemos parte): as mudanças instantâneas que ela gera são geralmente bruscas, dolorosas e devastadoras, alterando o curso da vida nas suas redondezas de modo destrutivo (furacões, terremotos, tsunamis, vulcões). Não temos tempo de nos adaptar, de entender os acontecimentos e nos planejar, apenas reagimos. Já as mudanças de longo prazo (a formação de um deserto, rio ou lago, a mudança das estações) permitem que nós as sigamos, as compreendamos e nos adequemos a elas.

Da mesma forma, precisamos de tempo para absorver e nos adaptar às novidades que buscamos trazer para nossas vidas. O corpo e a mente têm ritmos próprios e, se tivermos tranquilidade, antes do que imaginamos já teremos incorporado aquilo que no começo tentávamos nos impor à força.

O segredo é ter paciência, ir devagar, aceitar o tempo necessário para o amadurecimento das mudanças e não desistir.

Através desse caminho você pode: mudar de carreira, se alimentar melhor, criar o hábito de ler, frequentar uma academia, fazer uma poupança ou até abrir um negócio. Estes são objetivos que muitas pessoas alcançam; realizações que não foram criadas do dia para a noite e que exigiram um processo de amadurecimento, de autoconhecimento e de aceitação. Tudo demanda tempo, para alguns mais, para outros menos, e a paciência é a chave.

Tenha paciência consigo.
Tenha paciência com os outros.
Siga sempre em frente e, antes do que imagina, chegará lá.

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A DECISÃO

Eu estava deitado na cama e olhava fixamente para o teto buscando o infinito, eu olhava como se esperasse a cor do teto mudar do branco vivo para o preto opaco de forma mágica e surpreendente, mas isso era só uma coincidência: o teto não tinha nada a ver nem para ser visto. O que eu esperava, de verdade, era que a mudança acontecesse dentro de mim…

Depois de alguns anos, de tanto praticar, acabamos nos tornando especialistas em muitas coisas: em descer as escadas de casa sem olhar, em identificar o cachorro pelo latido no meio de vários outros cachorros com latidos parecidos, em contar de 0 a 100 em chinês sem gaguejar uma única vez, em acordar sem o despertador ou sem qualquer outra daquelas coisas que a gente se orgulha de verdade (mas não conta pra ninguém). Só que, infelizmente, o outro lado também ocorre – nos tornamos experts em coisas que não queríamos, planejávamos ou são até prejudiciais. Pensemos um pouco, você deve conhecer um expert em:

  • Começar dietas amanhã (mas se amanhã for sexta, na segunda então);
  • Dizer que vai mudar de emprego em breve (porque merece mais);
  • Colaborar financeiramente com academias;
  • Começar um curso e parar no meio;
  • Quase conseguir parar de fumar (quase, foi por pouco!);
  • etc, etc, etc

Mas, supondo que, porventura, você ainda não seja ou não conheça um expert desses (o que significa falta de atenção ou isolamento total da sociedade), eu me apresento.

Nome: Ramon

Especialidade: Resistência a mudanças.

Ok, não é algo raro, mas sabe quando você se incomoda tanto com um cheiro que precisa perguntar para quem está do lado: – Você tá sentindo? Sou só eu? Sou eu? Será que… estranho…

E ultimamente esta sensação tem me incomodado tanto que pensei em montar um grupo de auto-ajuda (GPRM: Grupo de Pessoas Resistentes a Mudanças), mas isto seria uma mudança e tanto… então, você entende né?

Veja bem, não estou me referindo às mudanças impostas de fora, aquelas que a gente reluta, xinga, reclama mas não evita: o chefe lhe deu mais trabalho, o carro quebrou no meio da marginal, o IPTU subiu (de novo) e o seu médico decidiu não atender mais o seu plano de saúde. Essas aí… até queria aprender a evitá-las! Assim escreveria um livro, não um post de blog. Com essas aí a gente aprende a lidar, a gente dá um jeito, tem que dar. Eu me especializei mesmo em resistir às mudanças que vêm de dentro, sabe? O desejo de aprender algo inusitado, de fazer uma viagem a um lugar desconhecido, de pular de paraquedas, de cantar em público, de abrir uma empresa, de me alimentar melhor, de cortar meu cabelo de um jeito diferente, de tocar violão, de ouvir um estilo de música novo, de escalar uma montanha, de investir com um risco maior, etc, etc etc. Eu sou realmente bom nisso. Hoje mesmo eu desistir de variar o cardápio: pedi o mesmo prato de sempre, sentando na mesma cadeira de sempre e bebi o mesmo suco de sempre.

Percebem? Eu sei do que eu to falando…

Enfim, um dia eu estava na cama. Era um daqueles dias de calor insuportável do verão de São Paulo (chamamos verão só por costume, o limite superior do verão fica 5ºC abaixo da temperatura média dos últimos dias) e eu pensava na vida, no que o ano de 2015 poderia reservar de bom, de ótimo e maravilhoso! Comecei a fazer a famosa lista de Promessas de Ano Novo: peguei a do ano passado e repassei mentalmente a mesma lista de tudo o que eu iria fazer, como mudar de país, abrir uma startup e dar a volta ao mundo num balão.

Na metade do processo, uma vozinha (uma voz, não uma vó), falou com um sussuro leve e desdenhoso: “Você não fará nada disso”.

Como assim? Instantaneamente indignei-me comigo pela afirmação absurda que minha mente proferira. Eu estava me dizendo que não faria nada daquilo que eu realmente queria fazer, que não realizaria nenhum dos meus sonhos, que terminaria o ano de 2015 sem nada espontaneamente novo, deixando-me levar pela vida e pelos seus desígnios imprevísiveis.

E… por mais non-sense que parecesse, era isso mesmo. E eu estava certo. Eu sempre resisti às mudanças voluntárias da vida, sempre me impedi de cumprir os meus objetivos utilizando de uma série de artifícios cuja listagem, descrição e aplicabilidade dariam outro livro.

Indignado, me dei um ultimato: fazer e ponto, sem negociação aqui. Afinal, eu tenho a absoluta certeza das minhas capacidades, se eu afirmava que poderia dar a volta ao mundo ou abrir uma empresa eu conseguiria, oras!

De repente, meu corpo começou a se estranhar, renunciava a si mesmo, as mãos e pernas ora iam para um lugar, ora para outro. Eu estava (e estou) vivenciando um conflito interno.

Imediatamente me dispus a me especializar em uma coisa nova: lidar com mudanças. Percebi que não é algo fácil e na verdade acho que o estranhamento causado pela decisão tenha se convertido numa “crise de abstinência  de mesmice” (semelhante quando ficamos muito tempo sem tomar café). Meu corpo e mente estão acostumados a, neste momento, estar no metrô, indo para casa, por isso minhas pernas coçam e apontam para a escadaria da estação, meus dedos querem fugir do teclado e fechar o notebook, mas eu resisto.

Eu resisto. Resistir é uma dor. Mudar é uma dor. O ser humano é condicionados ao prazer, ao conforto, à tranquilidade da rotina previsível (ainda que dura), à buscá-la e protegê-la.

Só que eu decidi mudar isso, decidi por que eu estou passando e o tempo não. Por que eu já estava prevendo os próximo 30 anos detalhadamente.

Decisão tomada, hora de ir. Passo um: começar um blog. Eu sempre quis manter um blog, já comecei muitos, este é mais um. Desta vez quero continuar e prosseguir, fazê-lo crescer e reproduzir. É um cultivo, me planto aqui.

Escrever um blog é uma mudança. Este post é o primeiro passo. Eu já dei esse passo muitas vezes, já disse “agora é pra valer”, muitas vezes. Então agora eu digo nada. Agora eu ando em silêncio, buscando vencer a resistência auto-imposta.

Vocês serão testemunhas deste conflito.

– Começar um blog: OK