AS DIFICULDADES

Incluir mudanças na rotina é algo difícil, ainda mais quando ela já está totalmente preenchida por todos os afazeres diários. Mesmo que elas tomem apenas dois minutos do dia, estamos sempre muito ocupados e (lembrando!) quando a mudança está sendo aprendida e ainda precisa entrar no piloto automático – o que demanda um tempo –  temos de nos esforçar para lembrar e realizá-la.

Aliás, se lembrar fosse o único problema a ser enfrentado, os nossos objetivos já teriam sido realizados há muito tempo! Existem outras dificuldades se interpondo entre nós e a realização de nossos anseios por uma vida melhor: às vezes falta inspiração e vontade ou  as condições externas não são favoráveis (chuva, calor excessivo), às vezes estamos com pressa e agimos automaticamente (antes das mudanças terem sido incorporadas), ou nos sentimos longe do objetivo e nos desanimamos – citando apenas algumas pedras no caminho.

É natural encontrar muitos fatores contrários às mudanças, pois elas são invasivas: por menores os seus efeitos elas mexem em um sistema já em equilíbrio, que resistirá ao máximo para se manter estável. Felizmente, porém, após um período de tempo, as absorvemos e encontramos um novo ponto de estabilidade, do qual elas fazem parte – neste momento estamos prontos a rumar em direção às próximas!

Felizmente, também, é possível superar todas as dificuldades do caminho – algumas apenas aparentes! – e alcançar nossos objetivos tomando algumas atitudes proativas no sentido de monitorar e controlar estas mudanças.

O primeiro passo é escrever num caderninho todos os acontecimentos que lhe fizeram desviar do seu objetivo – recomendo fazer isso por uma semana ou duas, – sem se culpar com pelas eventuais falhas na implementação das mudanças. No fim da último dia de anotações, a partir da lista criada, sente e escreva ao lado as alternativas e soluções possíveis para contornar os problemas. Por exemplo:

  1. Dificuldade em Lembrar: colocar alarmes no celular, no notebook, em uma parede próxima ao local de realização da tarefa, pedir que alguém lhe lembre (isto funciona comigo, meu amor me avisa quando eu esqueço de comer uma fruta junto com a refeição);
  2. Falta de inspiração:  não é todo dia que estamos dispostos a cozinhar uma refeição caseira, escrever um post de blog, sair para fotografar ou pintar um quadro. Neste caso, evite se culpar, tire aquele momento e tente realizar a tarefa, apenas comece e aos poucos a inspiração (e o jeito) vão aparecer;
  3. Falta de tempo: a rotina já está cheia, temos hora para chegar, almoçar, sair, pegar o ônibus, evitar o rodízio… enfim. Com tanta hora para tudo, uma solução é começar a mudança no tempo mínimo: corra, leia, escreva, pinte por 5 minutos somente, aos poucos estenda e continue assim até atingir seu objetivo. A rotina se ajustará automaticamente.
  4. Sol e chuva: estes são impedimentos comuns quando nosso objetivo é incluir atividade física no dia a dia. No caso do sol, use protetor solar, leve água consigo e busque fazer a atividade bem no início ou no final do dia, evitando os horários de maior intensidade de radiação solar. No caso da chuva, um tênis com um bom solado antiderrapante, uma capa de chuva e estamos prontos ! Se não houver jeito, frequentar uma academia é um caminho no qual estará livre de ambos!

Além destas soluções, há aquela válida para todas as mudanças que desejamos implementar em nossas vidas: contar com as pessoas ao nosso redor. Sejam nossos amigos, familiares, marido, esposa, namorado ou namorada, realizar atividades em conjunto e ter alguém apoiando é um fator de sucesso essencial – quem faz academia com um grupo de amigos sabe disso. Portanto, compartilhe e peça o apoio de quem você acredita estar disposto a lhe ajudar. Desta forma, o caminho em direção às mudanças (novos hábitos, melhores, mais saudáveis, equilibrados) será muito mais suave e prazeroso.

A PACIÊNCIA

“It doesn’t matter how slowly you go as long as you do not stop.”- Confucius

Esta frase é extremamente verdadeira quando falamos em alcançar mudanças na nossa vida. Não raramente, acordamos dispostos a implementar de supetão aquelas viradas sensacionais na nossa rotina, levantando com o pé direito e prometendo fazer tudo de forma diferente. Saímos impetuosos com um espírito disposto a cumprimentar todo mundo, comer uma refeição saudável, admirar a beleza da vida e voltar para casa pleno da sensação de que uma nova vida está começando…

Só que não ocorre nada disso.

As pessoas esbarram em você (no ônibus, no metrô, na rua, no shopping, na escada, nos corredores, nos elevadores, etc) e o sangue sobe até a última veia da cabeça. Aí você para no primeiro fast food pelo qual passa na hora do almoço ou pede aquela irresistível feijoada com refrigerante complementada por um bolo de  chocolate – com recheio e cobertura de chocolate! – de sobremesa… hum! No trabalho ou na faculdade, nada de novo. A noite, você chega em casa até meio chateado, mas se preocupa pouco: diz a si mesmo que no dia seguinte vai fazer dar certo.

E você tenta.

E passa todos os dias tentando!

Infelizmente, porém, as chances das suas tentativas darem certo são mínimas (mesmo depois de anos): as mudanças que permanecem verdadeiramente são processadas num ritmo muito mais devagar do que aquele com o qual nos acostumamos no dia-a-dia – ritmo este que vem acelerando. Elas exigem adaptação, paciência e tranquilidade.

Quando pensamos em buscar o melhor para nós, podemos nos inspirar na natureza (da qual fazemos parte): as mudanças instantâneas que ela gera são geralmente bruscas, dolorosas e devastadoras, alterando o curso da vida nas suas redondezas de modo destrutivo (furacões, terremotos, tsunamis, vulcões). Não temos tempo de nos adaptar, de entender os acontecimentos e nos planejar, apenas reagimos. Já as mudanças de longo prazo (a formação de um deserto, rio ou lago, a mudança das estações) permitem que nós as sigamos, as compreendamos e nos adequemos a elas.

Da mesma forma, precisamos de tempo para absorver e nos adaptar às novidades que buscamos trazer para nossas vidas. O corpo e a mente têm ritmos próprios e, se tivermos tranquilidade, antes do que imaginamos já teremos incorporado aquilo que no começo tentávamos nos impor à força.

O segredo é ter paciência, ir devagar, aceitar o tempo necessário para o amadurecimento das mudanças e não desistir.

Através desse caminho você pode: mudar de carreira, se alimentar melhor, criar o hábito de ler, frequentar uma academia, fazer uma poupança ou até abrir um negócio. Estes são objetivos que muitas pessoas alcançam; realizações que não foram criadas do dia para a noite e que exigiram um processo de amadurecimento, de autoconhecimento e de aceitação. Tudo demanda tempo, para alguns mais, para outros menos, e a paciência é a chave.

Tenha paciência consigo.
Tenha paciência com os outros.
Siga sempre em frente e, antes do que imagina, chegará lá.

A GRATIDÃO

Antes de decidir mudar precisamos passar pelo momento de reavaliação da nossa vida atual, entender o que ela nos oferece de bom e positivo, além do que podemos corrigir e aprimorar. Este reconhecimento de que nem tudo são espinhos (e também não são rosas) é fundamental para implementarmos as mudanças de forma bem sucedida, pois sem isto, nunca poderemos refletir sobre os impactos que estas mudanças trarão para nós e para o nosso dia a dia.

A avaliação daquilo que existe de positivo, nos permite exercitar a gratidão. A gratidão é o reconhecimento voluntário das dádivas da vida, daquilo que alcançamos e de que usufruimos. Ser grato é reconhecer que estas coisas poderiam não estar ali, nos forçando a viver sem elas, tirando parte do significado e da alegria de viver.

Sugiro que todos tenhamos uma lista de coisas pelas quais somos gratos. Uma lista feita diariamente, três ou cinco itens por vez. Uma lista de coisas simples, na qual expressamos nossa gratidão pelos detalhes do dia, pelos eventos quotidianos que nos fazem sentir vivos e mais humanos. Quando aprendemos a agradecer pelas maravilhas que nos cercam, apreciamos ainda mais as mudanças que estamos buscando trazer, desde as dificuldades iniciais, até a sua realização plena.

A minha lista é infinita, abaixo eu listo 30+1 coisas pelas quais eu sou grato neste exato momento.

Sou grato por (pelo/pela/pelos/pelas):

  1. Mulher maravilhosa com quem casei;
  2. Minha família estar bem de saúde e vivendo em harmonia;
  3. Viver em uma casa grande e agradável, onde posso realizar meus projetos pessoais e compartilhá-los com quem amo;
  4. Trabalhar num local muito bom com colegas muito legais;
  5. Estar saudável: enxergar e ouvir bem, andar sem dificuldades e comer de tudo;
  6. Receber o sol pela manhã em uma paisagem linda da minha janela;
  7. Chance de apreciar a lua nas noites de céu aberto;
  8. Ouvir músicas belíssimas no decorrer do dia;
  9. Viver numa região com transporte público acessível e com muitos serviços essenciais a curta distância (mercados, feira, bancos, hospital, tudo alcançável a pé);
  10. Oportunidade de tomar café da manhã e da tarde com minha esposa todos os dias;
  11. Paciência para enfrentar os estressantes momentos do dia a dia;
  12. Trabalhar num local com ar condicionado (e não passar o dia no calor de São Paulo);
  13. Oportunidade de estudar em uma ótima escola com professores dedicados;
  14. Ter recebido apoio dos meus pais nas minhas decisões pessoais e profissionais;
  15. Dormir  numa cama confortável ao lado da minha esposa;
  16. Por ter acesso a uma infinidade de culturas (músicas, textos, artes, línguas) através da internet;
  17. Por ser bem humorado e saber rir da vida!
  18. Acessar serviços de saúde essenciais sem dificuldade;
  19. Ter alimento à mesa todos os dias;
  20. Viver num país com uma culinária farta de alimentos deliciosos e saudáveis;
  21. Viver num país democrático (tem seus problemas é verdade, mas já foi muito mais difícil);
  22. Ajudar outras pessoas através do trabalho em ONGs e doações (e não estar no lado que precisa ser ajudado);
  23. Ter conhecido pessoas ótimas que me influenciaram de forma positiva;
  24. Viver uma vida financeira estável;
  25. Amizades incríveis feitas no decorrer da minha jornada;
  26. Disposição sempre crescente em aprender;
  27. Ter recordações maravilhosas da minha infância e adolescência;
  28. Achar os dias de chuva tão belos (ou até mais) quanto os dias de sol;
  29. Não ser um desastre na cozinha (pelo menos um arroz e feijão eu sei fazer!)
  30. Saber reconhecer as maravilhas da minha vida.
  31. Ter tido coragem de começar um blog (e persistir nisso!)

E você? Monte sua lista! Comece com apenas cinco itens, ponha mais cinco no dia seguinte e assim por diante. Isto mudará sua forma de encarar a vida e as mudanças que se propõe a fazer: elas virão agregar a uma vida já maravilhosa, não consertar uma existência errada e problemática.

Ah, se o seu inglês for aceitável, dá uma lida neste artigo:

Seven Habits of Grateful People: http://www.huffingtonpost.com/2013/11/27/gratitude-habits_n_4343934.html.

“Cultivate the habit of being grateful for every good thing that comes to you, and to give thanks continuously. And because all things have contributed to your advancement, you should include all things in your gratitude.”

“Cultive o hábito de ser grato por tudo de bom que vem até você e agradeça continuamente. E porque todas as coisas contribuíram para seu crescimento, você deve incluí-las em sua gratidão.”

– Ralph Waldo Emerson

A DECISÃO

Eu estava deitado na cama e olhava fixamente para o teto buscando o infinito, eu olhava como se esperasse a cor do teto mudar do branco vivo para o preto opaco de forma mágica e surpreendente, mas isso era só uma coincidência: o teto não tinha nada a ver nem para ser visto. O que eu esperava, de verdade, era que a mudança acontecesse dentro de mim…

Depois de alguns anos, de tanto praticar, acabamos nos tornando especialistas em muitas coisas: em descer as escadas de casa sem olhar, em identificar o cachorro pelo latido no meio de vários outros cachorros com latidos parecidos, em contar de 0 a 100 em chinês sem gaguejar uma única vez, em acordar sem o despertador ou sem qualquer outra daquelas coisas que a gente se orgulha de verdade (mas não conta pra ninguém). Só que, infelizmente, o outro lado também ocorre – nos tornamos experts em coisas que não queríamos, planejávamos ou são até prejudiciais. Pensemos um pouco, você deve conhecer um expert em:

  • Começar dietas amanhã (mas se amanhã for sexta, na segunda então);
  • Dizer que vai mudar de emprego em breve (porque merece mais);
  • Colaborar financeiramente com academias;
  • Começar um curso e parar no meio;
  • Quase conseguir parar de fumar (quase, foi por pouco!);
  • etc, etc, etc

Mas, supondo que, porventura, você ainda não seja ou não conheça um expert desses (o que significa falta de atenção ou isolamento total da sociedade), eu me apresento.

Nome: Ramon

Especialidade: Resistência a mudanças.

Ok, não é algo raro, mas sabe quando você se incomoda tanto com um cheiro que precisa perguntar para quem está do lado: – Você tá sentindo? Sou só eu? Sou eu? Será que… estranho…

E ultimamente esta sensação tem me incomodado tanto que pensei em montar um grupo de auto-ajuda (GPRM: Grupo de Pessoas Resistentes a Mudanças), mas isto seria uma mudança e tanto… então, você entende né?

Veja bem, não estou me referindo às mudanças impostas de fora, aquelas que a gente reluta, xinga, reclama mas não evita: o chefe lhe deu mais trabalho, o carro quebrou no meio da marginal, o IPTU subiu (de novo) e o seu médico decidiu não atender mais o seu plano de saúde. Essas aí… até queria aprender a evitá-las! Assim escreveria um livro, não um post de blog. Com essas aí a gente aprende a lidar, a gente dá um jeito, tem que dar. Eu me especializei mesmo em resistir às mudanças que vêm de dentro, sabe? O desejo de aprender algo inusitado, de fazer uma viagem a um lugar desconhecido, de pular de paraquedas, de cantar em público, de abrir uma empresa, de me alimentar melhor, de cortar meu cabelo de um jeito diferente, de tocar violão, de ouvir um estilo de música novo, de escalar uma montanha, de investir com um risco maior, etc, etc etc. Eu sou realmente bom nisso. Hoje mesmo eu desistir de variar o cardápio: pedi o mesmo prato de sempre, sentando na mesma cadeira de sempre e bebi o mesmo suco de sempre.

Percebem? Eu sei do que eu to falando…

Enfim, um dia eu estava na cama. Era um daqueles dias de calor insuportável do verão de São Paulo (chamamos verão só por costume, o limite superior do verão fica 5ºC abaixo da temperatura média dos últimos dias) e eu pensava na vida, no que o ano de 2015 poderia reservar de bom, de ótimo e maravilhoso! Comecei a fazer a famosa lista de Promessas de Ano Novo: peguei a do ano passado e repassei mentalmente a mesma lista de tudo o que eu iria fazer, como mudar de país, abrir uma startup e dar a volta ao mundo num balão.

Na metade do processo, uma vozinha (uma voz, não uma vó), falou com um sussuro leve e desdenhoso: “Você não fará nada disso”.

Como assim? Instantaneamente indignei-me comigo pela afirmação absurda que minha mente proferira. Eu estava me dizendo que não faria nada daquilo que eu realmente queria fazer, que não realizaria nenhum dos meus sonhos, que terminaria o ano de 2015 sem nada espontaneamente novo, deixando-me levar pela vida e pelos seus desígnios imprevísiveis.

E… por mais non-sense que parecesse, era isso mesmo. E eu estava certo. Eu sempre resisti às mudanças voluntárias da vida, sempre me impedi de cumprir os meus objetivos utilizando de uma série de artifícios cuja listagem, descrição e aplicabilidade dariam outro livro.

Indignado, me dei um ultimato: fazer e ponto, sem negociação aqui. Afinal, eu tenho a absoluta certeza das minhas capacidades, se eu afirmava que poderia dar a volta ao mundo ou abrir uma empresa eu conseguiria, oras!

De repente, meu corpo começou a se estranhar, renunciava a si mesmo, as mãos e pernas ora iam para um lugar, ora para outro. Eu estava (e estou) vivenciando um conflito interno.

Imediatamente me dispus a me especializar em uma coisa nova: lidar com mudanças. Percebi que não é algo fácil e na verdade acho que o estranhamento causado pela decisão tenha se convertido numa “crise de abstinência  de mesmice” (semelhante quando ficamos muito tempo sem tomar café). Meu corpo e mente estão acostumados a, neste momento, estar no metrô, indo para casa, por isso minhas pernas coçam e apontam para a escadaria da estação, meus dedos querem fugir do teclado e fechar o notebook, mas eu resisto.

Eu resisto. Resistir é uma dor. Mudar é uma dor. O ser humano é condicionados ao prazer, ao conforto, à tranquilidade da rotina previsível (ainda que dura), à buscá-la e protegê-la.

Só que eu decidi mudar isso, decidi por que eu estou passando e o tempo não. Por que eu já estava prevendo os próximo 30 anos detalhadamente.

Decisão tomada, hora de ir. Passo um: começar um blog. Eu sempre quis manter um blog, já comecei muitos, este é mais um. Desta vez quero continuar e prosseguir, fazê-lo crescer e reproduzir. É um cultivo, me planto aqui.

Escrever um blog é uma mudança. Este post é o primeiro passo. Eu já dei esse passo muitas vezes, já disse “agora é pra valer”, muitas vezes. Então agora eu digo nada. Agora eu ando em silêncio, buscando vencer a resistência auto-imposta.

Vocês serão testemunhas deste conflito.

– Começar um blog: OK